sábado, 1 de junho de 2013

Esse cansaço que grita

Foto tirada durante as manifestações. Disponível no site do
Jornal Diário da Manhã
 Sabem quando o estômago fica embrulhado só de ler algo absurdo? De escutar besteira? De ver barbaridades sendo cometidas a torto e a direito? Pois é, acho que todos já passamos por isso, por variados motivos evidentemente, visto que cada um tem sua concepção de barbárie e um estômago diferente.
A questão é que estou ficando cansado. Cansado de deixar pra lá, de fingir que não vi e me omitir – a omissão consome tudo de bom que pode haver. Mas acompanhando as notícias sobre as manifestações em Goiânia uma alegria me veio, um respiro, um alívio. Li em algum lugar que a cidade acordou depois de mil anos e me sinto exatamente assim, feliz por ver o sol começando a nascer em Goiânia.
Vamos acordando aos poucos, mais por um cansaço, uma dor, uma vergonha, um sentimento de humilhação do que por qualquer coisa concreta. Começamos a não tolerar mais sermos tratados como um grande e imenso nada, um grande e imenso coisíssima nenhuma, começamos a nos sentir cidadãos, a nos sentirmos gente, e isso vai aliviando aos poucos a dor.
Essa coisa que não é concreta poderia ser percebida facilmente em um problema com os ônibus que são péssimos, na polícia assassina, nos presídios, no preconceito e todas essas coisas abissais com que as pessoas convivem no dia a dia, e na verdade são bem concretas! Mas não, não manifestamos apenas por qualquer interesse concreto, objetivo, de resolver isso ou aquilo.
As coisas não são assim como tentam nos convencer que é... “vai ser feito um estudo pra ver se o ônibus é mesmo lotado”ou “ahh, estão investigando os grupos de extermínio” ou ainda “foi feita uma reunião...” pois se assim fosse, uma questão de mera lógica, de boa vontade, essa revolta não teria surgido com tamanha força, é uma questão de poder, dominação ideológica e tudo isso que logo chamarão de teoria da conspiração, mas que não passa de algo claro e evidente.
Nosso rancor vem de longe, vem de dentro, vem disso que nos torna iguais na nossa condição humana, isso de ter orgulho, de ansear pela justiça. Tentam provar o impossível, dizendo que os ônibus operam no prejuízo, que o governador nada tem a ver com o bicheiro, que coelhinho da páscoa existe, tentam ligar a manifestação pelo transporte a mera questão de preço. Não, não há como ficar calado, não há como ouvir as besteiras sobre manifestação pacífica, não existe pacifismo, nunca existiu! A violência ocorre dia a dia, somos violentados todo o tempo das piores formas que se pode imaginar, violentam nossos sonhos, violentam nossos corpos, violentam nosso tempo.
Por isso não fiquemos calados! As vezes parece o melhor a ser feito, confesso que quase aderi ao vazio. A primeira coisa que aprendi quando saí da escola pública e comecei a conviver na classe média (na universidade) foi a ficar calado, que essa coisa toda de reclamar sobre direitos era meio cafona, coisa de comunista, de gente esquisita, e que para entrar na classe e portanto pertencer ao grupo o melhor seria se alienar um pouco e não falar de assuntos “chatos”.
Resolvi ser chato, (já no inicio do segundo curso, um pouco tarde é verdade) resolvi ter coragem, resolvi lembrar de onde vim e enfrentar as consequências. É feio demais alguém que não honra sua origem.
Apoio as manifestações, apoio esse grito de desespero, porque a violência precisa parar. Não a violência contra o ônibus assegurado, contra o patrimônio que só faz gerar mais patrimônio que não é do povo nem nunca foi, a violência a qual me refiro é essa praticada pelo Estado, praticada pela mídia (sustentáculo deste). Se querem um exemplo prático - pois quem não a sente sempre achará que é exagero, que seus empregados reclamam demais etc - vou falar de um rapaz branco, economicamente de “classe média”, que poderia ser seu filho ou sua filha (ai a coisa fica séria...!), vou contar a história de alguém que para chegar na universidade pegava por dia 4 ônibus para ir (isso mesmo produção?) e 4 para voltar da faculdade. Todos cheios, 2 horas por dia no transporte público de Goiânia. Esse era eu, e o que via mais da metade dos meus colegas de sala não conseguiriam nem imaginar.
E eu ? Eu sou neném!! Tinha uma boa vida nessa época, chegava em casa, almoço na mesa, e embora perdesse esse tempo todo, ia para faculdade. E quem trabalha? Não 6h, de um estágio, não em uma mesa de escritório, mas quem põe a mão na massa, quem limpa nossa bagunça e nem imagina que seus filhos um dia irão fazer faculdade?

Isso enche o saco, para usar uma expressão chula mas que traduz bem a coisa. Enche o saco!!! Estamos de saco cheio, queremos ser vistos como gente, estão reclamando porque queimaram um ônibus, mas tomem cuidado!!! Acabem com isso logo, chamem o Exército, a Igreja, a mídia para fazer uma boa matéria sobre os perigos do “comunismo” e todos os velhos amigos, pois que um dia poderá acontecer como na Revolução Haitiana ou Russa, ou mesmo Francesa. Um dia o povo se cansa dos abusos e resolve ir fazer uma visita aos condomínios fechados. Aliás, tem ônibus que vai pra lá? (Produção responde: Sim, para levar os empregados...).

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto! Um abraço, Francisco Tavares - FCS-UFG

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